Conselhos : Dê o seu lance.
PostedO velho ditado nos diz que 'conselho, se fosse bom, era vendido'. Eu sou uma intrometida. Sempre dou conselhos para as pessoas, ainda quando não me pedem. O que é um erro, óbvio. Acontece que eu quero sempre evitar que alguém passe por coisas que eu já passei, em função de erros que eu mesma já cometi. Não que eu ache que ninguém deve errar. Pelo contrário: A gente só aprende a não tomar choque depois de colocar o dedo na tomada pela primeira vez. Mas eu acho que é responsabilidade de cada um mostrar às demais pessoas as dores e as delícias de determinadas escolhas. Cumpre-nos dizer 'Ó, se colocar o dedo na tomada, vai levar choque'. A partir daí o choque passa a ser opcional. Há quem se contente com a informação e há quem seja São Tomé e só acredite no choque após sentí-lo.
Conheço uma pessoa que, por total falta de malícia, faz certos comentários sobre ela mesma que só queimam o próprio filme. Eu mesma já fiz milhões de piadas em cima dos comentários dessa pessoa. O que é uma baita maldade, claro. Mas não adianta, meu anjinho fala em um ouvido 'Chris, não faz isso que é maldade' e meu diabinho dá um botadão no nariz do anjinho, manda o playboy calar a boca e aí -tchuns- o humor negro se manifesta.
Dia desses essa pessoa fez mais um dos comentários infelizes. Falou alguma coisa de se identificar com um personagem fofo de desenho animado. Acontece que essa pessoa é um homem prestes a se formar. No ambiente em que ele faz esse tipo de comentário, é preciso manter uma certa pose. Eu fiz algumas piadas sobre o cometário infeliz (na frente dele, óbvio, afinal vocês nunca me verão sendo filha da p... pelas costas) e, no instante seguinte, estava dando conselhos ao rapaz.
Disse para ele pensar milhões de vezes antes de falar o que pensa. É difícil e eu disse a ele que eu sei exatamente como é difícil. Eu disse que eu mesma vivo pecando por falar abertamente o que me vêm à cabeça. Mas que, depois de alguns tropeços, a gente aprende a se preservar um pouquinho mais. Sabe o que ele disse? Que preferia acreditar que as pessoas eram boas. Eu disse a ele que as pessoas nunca são totalmente boas nem totalmente más. Porém que, para nosso próprio bem, às vezes é melhor acreditar, desde o início, que a pessoa não é boa.
Eu disse para ele que, acreditando na bondade das pessoas e sendo surpreendido pelo desvio de caráter, a gente se decepciona. Mas se formos suficientemente desconfiados a ponto de não acreditarmos na pureza do caráter de ninguém e sermos surpreendidos por alguém muito legal, a gente ficará feliz por ter descoberto um diamante onde esperávamos encontrar carvão.
Resumo da ópera: Ele concordou comigo e disse que, apesar de achar muito díficil, vai tentar ser assim. Não quis acabar com a fantasia de um mundo cor-de-rosa do rapaz, mas às vezes é preciso fincar os pés no chão. Fato é que, mal o rapaz voltou para o lugar dele, olhei ao redor e todo mundo tava boquiaberto. Vieram me dizer que nunca esperavam que eu, logo eu, que fazia tantas piadas, pudesse ser a única a mostrar pro rapaz que ele estava sendo inocente demais. Disseram que foi legal porque eu disse tudo que ele precisava se tocar, porém de um jeito longe de ser 'papo de divã'.
Fiquei feliz porque consegui que um conselho que não havia sido pedido tenha atingido o seu objetivo. Fiquei feliz também por não me acharem uma intrometida. Fiquei feliz porque o rapaz sabe que pode contar comigo. E fiquei ainda mais feliz quando esse mesmo rapaz disse, no mesmo dia, que nunca esperava que eu, a mais piadista, fosse dar um conselho tão certeiro. E me agradeceu.
Como eu perco o amigo, mas não a piada, mandei logo: "Obrigada nada. O conselho é R$ 50,00 e meia hora de terapia tá saindo a R$75,00".
:)
